In Jornal T:

“A revista francesa The Good Life classificou-a como a empresa “mais cara e silenciosa” de Portugal. Mais cara não sabemos, silenciosa é seguramente. E não estamos só a falar de ruído industrial, que esse não existe de todo. Quem passa na rua José Falcão, no coração do Porto, não pode imaginar que aquele edifício de três pisos revestido por pequenos azulejos verdes alberga os mais de 80 trabalhadores do Atelier des Créateurs.

No exterior do prédio, uma antiga casa de um pastor protestante que ali se instalou no início do século XX, não há nenhum sinal que identifique o espaço com a produção de fatos feitos à medida para clientes das lojas de alta costura de Paris e Londres.

Entrar no Atelier des Créateurs é uma espécie de regresso ao passado. Todo o trabalho é feito à mão neste “ovni” têxtil criado em 2009 (utilizando a expressão da referida revista francesa) por José Gonzalez, um espanhol de Leon naturalizado francês, e por Gilles Zeitoun, um tunisino que aos dois anos emigrou para França com a família e adoptou a nacionalidade do país de acolhimento.

O próprio edifício é também um regresso ao passado. A começar pela sua história: das mãos do pastor protestante passou para as de um português seu amigo. E foi já com familiares deste último que acolheria um hotel e viria a ser mais tarde a sede da Associação Cristã da Mocidade. E provavelmente hoje estaria em ruínas se Gonzalez e Zeitoun não tivessem lá passado em 2007 quando decidiram expandir o negócio de alta costura que tinham e têm em Paris.

“Portugal era um país que tinha savoir faire nos têxteis. O Porto era uma cidade agradável e os dois ficaram seduzidos pelo edifício”, conta Ricardo Conceição, um dos responsáveis do Atelier des Créateurs, que está nesta empresa desde a sua fundação. Foi ele, aliás, que acompanhou todo o processo de aquisição e reabilitação do edifício na baixa do Porto.

Foi precisamente em 2007 que criaram a empresa para adquirir e reabilitar o edifício. Comprar o imóvel não foi propriamente fácil. O número de herdeiros rondava as duas dezenas, mas havia muitas variáveis a ter em conta por causa da morte de alguns já de avançada idade – ou por não terem descendentes ou por surgirem ainda mais herdeiros. Certo é que Gonzalez e Zeitoun adquiriram o edifício por um milhão de euros e gastaram dois milhões a recuperá-lo, num processo que durou dois anos, mas que acabou com a atribuição do Prémio Nacional de Reabilitação ao prédio hoje ocupado pelo Atelier des Créateurs.

É preciso também regressar ao passado para saber a origem da sociedade entre Gonzalez e Zeitoun. O primeiro fazia fatos de luxo. O segundo trabalhava na área das finanças e dos seguros. Nos anos 80 conheceram-se quando Zeitoun encomendou o seu fato de casamento a Gonzalez. Da amizade foi um passo para os negócios em comum tanto mais que o pai e o avô do financeiro eram alfaiates. “Gilles Zeitoun quis dignificar a arte da alfaiataria que em França quase já não existia, associando-se por isso a José Gonzalez”, lembra Ricardo Conceição.

Hoje o Atelier des Créateurs faz 35 fatos por dia. Os compradores vão a lojas de Londres e Paris tirar as medidas que depois são enviadas para o Porto. Mas há também uma espécie de alfaiate- caixeiro-viajante que vai às casas dos clientes fazer esse serviço. “Tudo o que está a ver está vendido. Nós não queremos stocks”, diz Ricardo Conceição enquanto aponta para os trabalhadores da empresa que vão cortando ou cozendo os tecidos. O preço médio de um fato ronda os 1500 euros.

Giles Zeitoun recusa falar em números. “Esta empresa não foi feita para fazer dinheiro. Foi feita para honrar a arte do meu pai”, confessa frequentemente o financeiro tunisiano, que entretanto já se radicou no Porto (vive na Foz Velha) e foi galardoado como cidadão honorário pelo presidente da autarquia Rui Moreira. Quanto a Gonzalez continua a viver e em Paris e a deslocar-se frequentemente ao Porto para ir acompanhando o trabalho.

A revista The Good Life assegura que o volume de negócios da empresa em 2015 ronda os dois milhões de euros, valor que Ricardo Conceição não confirma, seguindo assim as instruções de Giles Zeitoun. Confessa apenas que o objectivo do Atelier: daqui por dois anos estar a fazer 40 fatos por dia. E dá também a garantia que não entrarão no negócio da venda online. “Queremos continuar a ser silenciosos”.